sábado, junho 23, 2007
segunda-feira, março 05, 2007
Há Palavras Que Nos Beijam
Alexandre O'Neill
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
A bela de Amherst (trecho)
Emily Dickinson
Noites Loucas – Noites Loucas!
Estivesse eu contigo Noites
Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!
Para Coração em porto –
Ventos – são coisas fúteis –
Bússolas – dispensáveis –
Portulanos – inúteis!
Navegando em pleno Éden –
Ah, o Mar!
Quem dera – esta Noite – em Ti
Ancorar!
Noites Loucas – Noites Loucas!
Estivesse eu contigo Noites
Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!
Para Coração em porto –
Ventos – são coisas fúteis –
Bússolas – dispensáveis –
Portulanos – inúteis!
Navegando em pleno Éden –
Ah, o Mar!
Quem dera – esta Noite – em Ti
Ancorar!
sábado, janeiro 20, 2007
Il tempo ci rapisce, e il cielo è solo
Carlo Betocchi
Il tempo ci rapisce, e il cielo è solo
anche di queste rondini che il volo
intrecciano, pericolosamente,
come chi va cercando nella mente
qualche nome perduto... e il ritrovarlo
nemmeno conta, poiché ormai è già sera.
Eh sì! s'invecchia, e ritorna più vera
la vita che già fu, rosa da un tarlo...
un tarlo che la monda. E vien la sera.
E i pensieri s'intrecciano, e le rondini.
E non siamo più noi; siamo i profondi
cieli dell'esistenza, ahi come intera
e profondissima, cupa, nel suo indaco.
Il tempo ci rapisce, e il cielo è solo
anche di queste rondini che il volo
intrecciano, pericolosamente,
come chi va cercando nella mente
qualche nome perduto... e il ritrovarlo
nemmeno conta, poiché ormai è già sera.
Eh sì! s'invecchia, e ritorna più vera
la vita che già fu, rosa da un tarlo...
un tarlo che la monda. E vien la sera.
E i pensieri s'intrecciano, e le rondini.
E non siamo più noi; siamo i profondi
cieli dell'esistenza, ahi come intera
e profondissima, cupa, nel suo indaco.
domingo, dezembro 31, 2006
Wer leidet, leidet allein.
Obwohl ich mir nie über diejenigen, die sich meine Freunde nannten, Illusionen gemacht habe, war ich doch immer imstande, von ihnen enttäuscht zu werden - so verwickelt und subtil ist meine Leidensfähigkeit. Da ich nie in mir Eigenschaften entdeckt habe, die jemanden anziehen konnten, konnte ich auch nie glauben, dass sich jemand von mir angezogen fühlen könnte. Diese Meinung verriet törichte Bescheidenheit, wenn sie nicht von immer neuen Vorkommnissen - jenen unerwarteten Vorkommnissen, die ich erwartet hatte - wieder und wieder bestätigt worden wäre.
O que chora, chora só.
Embora nunca tivesse ilusões a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilusões com eles - tão complexo e sutil é o meu destino de sofrer. Nunca duvidei que todos me traíssem; e pasmei sempre quando me traíram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim. Como nunca descobri em mim qualidades que atraíssem alguém, nunca pude acreditar que alguém se sentisse atraído por mim. A opinião seria de uma modéstia estulta, se fatos sobre fatos - aqueles inesperados fatos que eu esperava - a não viessem confirmar sempre.
O que chora, chora só.
Embora nunca tivesse ilusões a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilusões com eles - tão complexo e sutil é o meu destino de sofrer. Nunca duvidei que todos me traíssem; e pasmei sempre quando me traíram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim. Como nunca descobri em mim qualidades que atraíssem alguém, nunca pude acreditar que alguém se sentisse atraído por mim. A opinião seria de uma modéstia estulta, se fatos sobre fatos - aqueles inesperados fatos que eu esperava - a não viessem confirmar sempre.
domingo, setembro 10, 2006
Só
Edgar Allan Poe
tradução de Oscar Mendes
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.
tradução de Oscar Mendes
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.
domingo, julho 16, 2006
Reservo-me o domingo para a busca
António Rebordão Navarro
Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre
como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria? No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.
António Rebordão Navarro
O Dia Dentro da Noite
Poemas (1952 - 1982)
Imprensa Nacional Casa da Moeda
Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre
como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria? No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.
António Rebordão Navarro
O Dia Dentro da Noite
Poemas (1952 - 1982)
Imprensa Nacional Casa da Moeda
domingo, julho 09, 2006
O Canto da Noite
Friedrich W. Nietszche
"É noite; agora eleva−se mais a voz das
fontes. E a minha alma é também uma
fonte.
É noite; agora despertam todos os
cantos dos amantes. E a minha alma é
também um canto de amante.
Há qualquer coisa em mim não aplicada
nem aplicável, que quer elevar a voz.
Há em mim um anelo de amor que fala
a linguagem do amor.
Eu sou luz. Ah! se fosse noite! Mas é
esta a minha soledade: ver−me rodeado
de luz.
Ah! se eu fosse sombrio e noturno!
Como sorveria os seios da luz! E
também vos bendiria a vós, estrelinhas
que brilhais lá em cima como pirilampos!
E seria venturoso com vossos mimos de
luz.
Eu, porém, vivo da minha própria luz,
absorvo em mim mesmo as chamas que
de mim brotam.
Eu não conheço o prazer de receber, e
freqüentemente tenho sonhado que
roubar deve ser ainda maior deleite do
que receber.
A minha pobreza reside em que a minha
mão nunca se cansa de dar, a minha
inveja são os olhos que vejo esperando,
e as noites vazias do desejo.
Ó, miséria de todos os que dão! Ó,
eclipse do meu sol! Ó, desejo de
desejar! Ó, fome devoradora na fartura!
Eles recebem de mim; mas, acaso lhes
tocarei eu sequer a alma? Entre dar e
receber há um abismo; e é muito difícil
transpor o menor abismo.
Nasceu um homem da minha beleza:
quereria prejudicar os que ilumino;
quereria saquear os que cumulo de
presentes: assim tenho ânsia de
maldade.
Retirando a mão, quando a mão já se
estende; vacilando como a cascata que
vacila até na sua queda; assim eu tenho
sede de maldade. Tais vinganças
medita a minha exuberância; tais
malícias nascem da minha solidão.
O meu prazer de dar morreu à força de
dar; a minha virtude cansou−se de si
mesma por sua própria exuberância.
O que dá sempre corre perigo de perder
o pudor; aquele que reparte sempre, à
força de repartir acaba por se lhe
calejarem as mãos e o coração.
Os meus olhos já se não arrasam de
lágrimas ao ver a vergonha dos que
imploram; a minha mão endureceu
demais para experimentar o tremor das
mãos cheias.
Para aonde foram as lágrimas dos meus
olhos e a plumagem do meu coração?
Ó, soledade de todos que dão! Ó,
silêncio dos que brilham! Muitos sóis
gravitam no espaço vazio; a sua luz fala
a tudo que é obscuro; só para mim
emudeceu.
Ó! É a inimizade da luz contra o
luminoso! Desapiedada, segue o seu
caminho. Profundamente injusto contra
o luminoso, frio para com os sóis, assim
caminha todo o sol. Como uma
tempestade voam os sóis por suas
órbitas: é esse o seu caminho. Seguem
a sua vontade inexorável: é essa a sua
frialdade.
Ai, só vós obscuros e noturnos, que
tirais o vosso calor do luminoso, só vós
bebeis o leite balsâmico dos úberes da
luz!
Ai, há gelo em torno de mim, gelo que
queima as minhas mãos! Tenho uma
sede que suspira por vossa sede!
É noite. Ai! Por que hei de eu ser a luz?
E sede do noturno! E soledade!
É noite... como uma fonte, brota o meu
anelo − meu anelo de fulgor.
É noite: agora eleva−se mais a voz das
fontes; e a minha alma é também uma
fonte.
É noite: agora despertam todos os
cantos dos namorados. E a minha alma
é também um canto de namorado".
Assim falou Zaratustra.
----
Fonte: Nietszche, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra. Ed. Rideel, São Paulo, 2005.
"É noite; agora eleva−se mais a voz das
fontes. E a minha alma é também uma
fonte.
É noite; agora despertam todos os
cantos dos amantes. E a minha alma é
também um canto de amante.
Há qualquer coisa em mim não aplicada
nem aplicável, que quer elevar a voz.
Há em mim um anelo de amor que fala
a linguagem do amor.
Eu sou luz. Ah! se fosse noite! Mas é
esta a minha soledade: ver−me rodeado
de luz.
Ah! se eu fosse sombrio e noturno!
Como sorveria os seios da luz! E
também vos bendiria a vós, estrelinhas
que brilhais lá em cima como pirilampos!
E seria venturoso com vossos mimos de
luz.
Eu, porém, vivo da minha própria luz,
absorvo em mim mesmo as chamas que
de mim brotam.
Eu não conheço o prazer de receber, e
freqüentemente tenho sonhado que
roubar deve ser ainda maior deleite do
que receber.
A minha pobreza reside em que a minha
mão nunca se cansa de dar, a minha
inveja são os olhos que vejo esperando,
e as noites vazias do desejo.
Ó, miséria de todos os que dão! Ó,
eclipse do meu sol! Ó, desejo de
desejar! Ó, fome devoradora na fartura!
Eles recebem de mim; mas, acaso lhes
tocarei eu sequer a alma? Entre dar e
receber há um abismo; e é muito difícil
transpor o menor abismo.
Nasceu um homem da minha beleza:
quereria prejudicar os que ilumino;
quereria saquear os que cumulo de
presentes: assim tenho ânsia de
maldade.
Retirando a mão, quando a mão já se
estende; vacilando como a cascata que
vacila até na sua queda; assim eu tenho
sede de maldade. Tais vinganças
medita a minha exuberância; tais
malícias nascem da minha solidão.
O meu prazer de dar morreu à força de
dar; a minha virtude cansou−se de si
mesma por sua própria exuberância.
O que dá sempre corre perigo de perder
o pudor; aquele que reparte sempre, à
força de repartir acaba por se lhe
calejarem as mãos e o coração.
Os meus olhos já se não arrasam de
lágrimas ao ver a vergonha dos que
imploram; a minha mão endureceu
demais para experimentar o tremor das
mãos cheias.
Para aonde foram as lágrimas dos meus
olhos e a plumagem do meu coração?
Ó, soledade de todos que dão! Ó,
silêncio dos que brilham! Muitos sóis
gravitam no espaço vazio; a sua luz fala
a tudo que é obscuro; só para mim
emudeceu.
Ó! É a inimizade da luz contra o
luminoso! Desapiedada, segue o seu
caminho. Profundamente injusto contra
o luminoso, frio para com os sóis, assim
caminha todo o sol. Como uma
tempestade voam os sóis por suas
órbitas: é esse o seu caminho. Seguem
a sua vontade inexorável: é essa a sua
frialdade.
Ai, só vós obscuros e noturnos, que
tirais o vosso calor do luminoso, só vós
bebeis o leite balsâmico dos úberes da
luz!
Ai, há gelo em torno de mim, gelo que
queima as minhas mãos! Tenho uma
sede que suspira por vossa sede!
É noite. Ai! Por que hei de eu ser a luz?
E sede do noturno! E soledade!
É noite... como uma fonte, brota o meu
anelo − meu anelo de fulgor.
É noite: agora eleva−se mais a voz das
fontes; e a minha alma é também uma
fonte.
É noite: agora despertam todos os
cantos dos namorados. E a minha alma
é também um canto de namorado".
Assim falou Zaratustra.
----
Fonte: Nietszche, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra. Ed. Rideel, São Paulo, 2005.
segunda-feira, julho 03, 2006
Miss Sarajevo
U2
Is there a time for keeping your distance
A time to turn your eyes away.
Is there a time for keeping your head down
For getting on with your day.
Is there a time for kohl and lipstick
A time for cutting hair
Is there a time for high street shopping
To find the right dress to wear.
Here she comes, heads turn around
Here she comes, to take her crown.
Is there a time to run for cover
A time for kiss and tell.
Is there a time for different colours
Different names you find it hard to spell.
Is there a time for first communion
A time for East 17
Is there a time to turn to Mecca
Is there time to be a beauty queen.
Here she comes, beauty plays the clown
Here she comes, surreal in her crown.
"Dici che il fiume trova la via al mare
E come il fiume giungerai a me
Oltre i confini e le terre assetate
Dici che come fiume
Come fiume...
L'amore giungera
l'amore...
E non so più pregare
E nell'amore non so più sperare
E quell'amore non so più aspettare."
Is there a time for tying ribbons
A time for Christmas trees.
Is there a time for laying tables
And the night is set to freeze.
Is there a time for keeping your distance
A time to turn your eyes away.
Is there a time for keeping your head down
For getting on with your day.
Is there a time for kohl and lipstick
A time for cutting hair
Is there a time for high street shopping
To find the right dress to wear.
Here she comes, heads turn around
Here she comes, to take her crown.
Is there a time to run for cover
A time for kiss and tell.
Is there a time for different colours
Different names you find it hard to spell.
Is there a time for first communion
A time for East 17
Is there a time to turn to Mecca
Is there time to be a beauty queen.
Here she comes, beauty plays the clown
Here she comes, surreal in her crown.
"Dici che il fiume trova la via al mare
E come il fiume giungerai a me
Oltre i confini e le terre assetate
Dici che come fiume
Come fiume...
L'amore giungera
l'amore...
E non so più pregare
E nell'amore non so più sperare
E quell'amore non so più aspettare."
Is there a time for tying ribbons
A time for Christmas trees.
Is there a time for laying tables
And the night is set to freeze.
sábado, junho 10, 2006
Momento
David Mourão Ferreira
Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre linguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música
Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre linguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música
terça-feira, junho 06, 2006
The Number of The Beast
Iron Maiden
Woe to you, Oh Earth and Sea,
For the Devil sends the beast with wrath
Because he knows the time is short...
Let him who hath understanding reckon
The number of the beast
For it is a human number
Its number is Six hundred and sixty six.
(Revelations ch. XIII v. 18)
I left alone my mind was blank
I needed time
To get the memories from my mind
What did I see can I believe
That what I saw that night was real
And not just fantasy
Just what I saw in my old dreams
Were the reflections of my warped mind
Staring back at me
Cos in my dreams it's always there
The evil face that twists my mind
And brings me to despair
The night was black was no use holding back
Cos I just had to see was someone watching me
In the mist dark figures move and twist
Was all this for real or some kind of hell
666 the Number of the Beast
Hell and fire was spawned to be released
Torches blazed and sacred chants were praised
As they start to cry
Hands held to the sky
In the night the fires burning bright
The ritual has begun
Satan's work is done
666 the Number of the Beast
Sacrifice is going on tonight
This can't go on I must inform the law
Can this still be real or some crazy dream
But I feel drawn
Towards the evil chanting hordes
They seem to mesmerise me...
Can't avoid their eyes
666 the Number of the Beast
666 the one for you and me
I'm coming back I will return
And I'll possess your body
And I'll make you burn
I have the fire I have the force
I have the power
To make my evil take its course
Woe to you, Oh Earth and Sea,
For the Devil sends the beast with wrath
Because he knows the time is short...
Let him who hath understanding reckon
The number of the beast
For it is a human number
Its number is Six hundred and sixty six.
(Revelations ch. XIII v. 18)
I left alone my mind was blank
I needed time
To get the memories from my mind
What did I see can I believe
That what I saw that night was real
And not just fantasy
Just what I saw in my old dreams
Were the reflections of my warped mind
Staring back at me
Cos in my dreams it's always there
The evil face that twists my mind
And brings me to despair
The night was black was no use holding back
Cos I just had to see was someone watching me
In the mist dark figures move and twist
Was all this for real or some kind of hell
666 the Number of the Beast
Hell and fire was spawned to be released
Torches blazed and sacred chants were praised
As they start to cry
Hands held to the sky
In the night the fires burning bright
The ritual has begun
Satan's work is done
666 the Number of the Beast
Sacrifice is going on tonight
This can't go on I must inform the law
Can this still be real or some crazy dream
But I feel drawn
Towards the evil chanting hordes
They seem to mesmerise me...
Can't avoid their eyes
666 the Number of the Beast
666 the one for you and me
I'm coming back I will return
And I'll possess your body
And I'll make you burn
I have the fire I have the force
I have the power
To make my evil take its course
sexta-feira, maio 26, 2006
Congresso Internacional do Medo
Carlos Drummond de Andrade
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
sábado, maio 20, 2006
Poema dos dons
Jorge Luis Borges
(tradução de Paulo Mendes Campos)
Graças quero dar ao divino
labirinto de efeitos e causas
pela diversidade das criaturas
que formam este singular universo,
pela razão, que não deixará de sonhar
com um plano para o labirinto,
pela face de Helena e a perseverança de Ulisses,
pelo amor, que nos deixa ver os outros
como os vê a divindade,
pelo firme diamante e água solta,
pela álgebra, palácio de precisos cristais,
pelas místicas moedas de Ângelo Silésio,
por Schopenhauer,
que talvez decifrou o universo,
pelo fulgor do fogo,
que nenhum ser humano pode olhar sem assombro antigo,
pelo mogno, o cedro, o sândalo,
pelo pão e o sal,
pelo mistério da rosa
que prodigaliza cor e não a vê,
por certas vésperas e dias de 1955,
pelos duros tropeiros que na planície fustigam os animais e a alva,
pela manhã em Montevidéu,
pela arte da amizade,
pelo último dia de Sócrates,
pelas palavras que no crepúsculo disseram
de uma cruz a outra cruz,
por aquele sonho do Islã que abarcou
mil e uma noites,
por aquele outro sonho do inferno,
da torre do fogo que purifica
e das esferas gloriosas,
por Swedenborg,
que conversava com os anjos nas ruas de Londres.
pelos rios secretos e imemoriais
que convergem em mim,
pelo idioma que, há séculos, falei em Nortúmbria,
pela espada e a harpa dos saxônios,
pelo mar, que é um deserto resplandecente
e uma cifra de coisas que não sabemos
e um epitáfio dos vikings,
pela música verbal da Inglaterra,
pela música verbal da Alemanha, pelo ouro que reluz nos versos,
pelo inverno épico,
pelo nome de um livro que não li: Gesta Dei per Francos,
por Verlaine, inocente como os pássaros,
pelos prismas de cristal e o peso de bronze,
pelas raias do tigre,
pelas altas torres de São Francisco e da ilha de Manhattan,
pela manhã no Texas,
por aquele sevilhano que redigiu a Epístola Moral
e cujo nome, como ele houvera preferido, ignoramos,
por Sêneca e Lucano de Córdoba,
que antes do espanhol escreveram
toda a literatura espanhola,
pelo geométrico e bizarro xadrez,
pela tartaruga de Zenão e o mapa de Royce,
pelo odor medicinal do eucalipto,
pela linguagem, que pode simular a sabedoria,
pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado,
pelo hábito,
que nos repete e nos confirma como um espelho,
pela manhã, que nos proporciona a ilusão de um começo,
pela noite, sua treva e sua astronomia,
pelo valor e a felicidade dos outros,
pela pátria, sentida nos jasmins
ou numa velha espada,
por Whitmann e Francisco de Assis, que já escreveram o poema,
pelo fato de que o poema é inesgotável
e se confunde com a soma das criaturas
e jamais chegará ao último verso
e varia segundo os homens,
por Francisco Haslam, que pediu perdão aos filhos
por morrer tão devagar,
pelos minutos que precedem o sono,
pelo sono e pela morte,
esses dois tesouros ocultos,
pelos íntimos dons que não enumero,
pela música, misteriosa forma do tempo.
(tradução de Paulo Mendes Campos)
Graças quero dar ao divino
labirinto de efeitos e causas
pela diversidade das criaturas
que formam este singular universo,
pela razão, que não deixará de sonhar
com um plano para o labirinto,
pela face de Helena e a perseverança de Ulisses,
pelo amor, que nos deixa ver os outros
como os vê a divindade,
pelo firme diamante e água solta,
pela álgebra, palácio de precisos cristais,
pelas místicas moedas de Ângelo Silésio,
por Schopenhauer,
que talvez decifrou o universo,
pelo fulgor do fogo,
que nenhum ser humano pode olhar sem assombro antigo,
pelo mogno, o cedro, o sândalo,
pelo pão e o sal,
pelo mistério da rosa
que prodigaliza cor e não a vê,
por certas vésperas e dias de 1955,
pelos duros tropeiros que na planície fustigam os animais e a alva,
pela manhã em Montevidéu,
pela arte da amizade,
pelo último dia de Sócrates,
pelas palavras que no crepúsculo disseram
de uma cruz a outra cruz,
por aquele sonho do Islã que abarcou
mil e uma noites,
por aquele outro sonho do inferno,
da torre do fogo que purifica
e das esferas gloriosas,
por Swedenborg,
que conversava com os anjos nas ruas de Londres.
pelos rios secretos e imemoriais
que convergem em mim,
pelo idioma que, há séculos, falei em Nortúmbria,
pela espada e a harpa dos saxônios,
pelo mar, que é um deserto resplandecente
e uma cifra de coisas que não sabemos
e um epitáfio dos vikings,
pela música verbal da Inglaterra,
pela música verbal da Alemanha, pelo ouro que reluz nos versos,
pelo inverno épico,
pelo nome de um livro que não li: Gesta Dei per Francos,
por Verlaine, inocente como os pássaros,
pelos prismas de cristal e o peso de bronze,
pelas raias do tigre,
pelas altas torres de São Francisco e da ilha de Manhattan,
pela manhã no Texas,
por aquele sevilhano que redigiu a Epístola Moral
e cujo nome, como ele houvera preferido, ignoramos,
por Sêneca e Lucano de Córdoba,
que antes do espanhol escreveram
toda a literatura espanhola,
pelo geométrico e bizarro xadrez,
pela tartaruga de Zenão e o mapa de Royce,
pelo odor medicinal do eucalipto,
pela linguagem, que pode simular a sabedoria,
pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado,
pelo hábito,
que nos repete e nos confirma como um espelho,
pela manhã, que nos proporciona a ilusão de um começo,
pela noite, sua treva e sua astronomia,
pelo valor e a felicidade dos outros,
pela pátria, sentida nos jasmins
ou numa velha espada,
por Whitmann e Francisco de Assis, que já escreveram o poema,
pelo fato de que o poema é inesgotável
e se confunde com a soma das criaturas
e jamais chegará ao último verso
e varia segundo os homens,
por Francisco Haslam, que pediu perdão aos filhos
por morrer tão devagar,
pelos minutos que precedem o sono,
pelo sono e pela morte,
esses dois tesouros ocultos,
pelos íntimos dons que não enumero,
pela música, misteriosa forma do tempo.
sábado, maio 13, 2006
It's Too Late

Wilson Pickett
It's too late
Said it's too late, yes it is
My love is gone away to stay
Don't you know it's too late now
Listen, children, I wanna tell you this
It's too late to cry
It's too late to cry now
My love is gone away, yes she has
I just guess that you're wonderin' why I always sing a sad song But you see, I had a woman who was very good to me and I can remember the times she used to sit down and tell me these words: Said, "Pickett, I want you to know I love you from the bottom of my heart and whatever you need, I don't want you to go to your mother, your father, your sister or your brother... I'll be a leadin' pull when you're fallin' down. When all your money's gone, I want you to know you can count on me"
But I didn't appreciate that woman then. You know what? I had to run and chase after every little girl around town. So finally one day I got home and I found my little girl gone and people, you know it hurt me so bad (ha ha) I had to hang my little head and cry. Then I began to read the letter she left for me layin' there; it read like this, children
It's too late, she's gone, oh
(she's gone)
"It's too late I'm gone away"
(she's gone)
Ah yeah (too late) don't you know it, children
(too late)
Yeah yeah yeah yeah yeah yeah
Say it one more time
(too late)
listen
(too late)
I wanna hear you understand what I'm talkin' about
(too late)
sábado, abril 29, 2006
A casada infiel
Federico García Lorca
E eu que a levei ao rio
supondo fosse donzela,
quando já tinha marido.
Era noite de São Tiago
e foi quase um compromisso.
Apagaram-se os faróis
e se acenderam os grilos.
Já nas últimas esquinas
toquei-lhe os peitos dormidos,
e se me abriram de pronto
como ramos de jacintos.
Polvilho de sua anágua
vinha ranger-me no ouvido
tal como um corte de seda
por dez lâminas rompido.
Sem luz de prata nas copas
os troncos tinham crescido,
e um horizonte de cães
ladrava longe do rio.
Atravessando o silvado,
por entre juncos e espinhos,
sob a sua cabeleira
fiz uma concha no limo.
Tirei a minha gravata.
Ela tirou seu vestido.
Eu, o cinto com o revólver.
Ela, seus quatro corpinhos.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina
nem sob a lua cristais
relumbram com tanto brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
metade cheias de lume,
metade cheias de frio.
Naquela noite corri
pelo melhor dos caminhos,
montado em potra de nácar,
sem freios e sem estribos.
Não quero dizer, sou homem,
as coisas que ela me disse.
É que a luz do entendimento
me torna mui comedido.
Suja de beijo e de areia,
levei-a dali do rio.
Em luta com o ar, batiam-se,
brancas espadas, os lírios.
Portei-me como quem sou.
Como gitano legítimo.
Dei-lhe estojo de costura,
grande, de fina palhinha,
mas não quis enamorar-me,
porque, já tenho marido,
me disse que era donzela
quando eu a levava ao rio.
(tradução de Carlos Drummond de Andrade)
Da revista: "Poesia Sempre", nº 7, Fundação Biblioteca Nacional, 1996, RJ
E eu que a levei ao rio
supondo fosse donzela,
quando já tinha marido.
Era noite de São Tiago
e foi quase um compromisso.
Apagaram-se os faróis
e se acenderam os grilos.
Já nas últimas esquinas
toquei-lhe os peitos dormidos,
e se me abriram de pronto
como ramos de jacintos.
Polvilho de sua anágua
vinha ranger-me no ouvido
tal como um corte de seda
por dez lâminas rompido.
Sem luz de prata nas copas
os troncos tinham crescido,
e um horizonte de cães
ladrava longe do rio.
Atravessando o silvado,
por entre juncos e espinhos,
sob a sua cabeleira
fiz uma concha no limo.
Tirei a minha gravata.
Ela tirou seu vestido.
Eu, o cinto com o revólver.
Ela, seus quatro corpinhos.
Nem nardos nem caracóis
têm uma cútis tão fina
nem sob a lua cristais
relumbram com tanto brilho.
Suas coxas me escapavam
como peixes surpreendidos,
metade cheias de lume,
metade cheias de frio.
Naquela noite corri
pelo melhor dos caminhos,
montado em potra de nácar,
sem freios e sem estribos.
Não quero dizer, sou homem,
as coisas que ela me disse.
É que a luz do entendimento
me torna mui comedido.
Suja de beijo e de areia,
levei-a dali do rio.
Em luta com o ar, batiam-se,
brancas espadas, os lírios.
Portei-me como quem sou.
Como gitano legítimo.
Dei-lhe estojo de costura,
grande, de fina palhinha,
mas não quis enamorar-me,
porque, já tenho marido,
me disse que era donzela
quando eu a levava ao rio.
(tradução de Carlos Drummond de Andrade)
Da revista: "Poesia Sempre", nº 7, Fundação Biblioteca Nacional, 1996, RJ
sexta-feira, abril 21, 2006
The Garden Of Love
William Blake
I laid me down upon a bank,
Where Love lay sleeping;
I heard among the rushes dank
Weeping, weeping.
Then I went to the heath and the wild,
To the thistles and thorns of the waste;
And they told me how they were beguiled,
Driven out, and compelled to the chaste.
I went to the Garden of Love,
And saw what I never had seen;
A Chapel was built in the midst,
Where I used to play on the green.
And the gates of this Chapel were shut
And "Thou shalt not," writ over the door;
So I turned to the Garden of Love
That so many sweet flowers bore.
And I saw it was filled with graves,
And tombstones where flowers should be;
And priests in black gowns were walking their rounds,
And binding with briars my joys and desires.
quinta-feira, abril 06, 2006
Transforma-se o amador na cousa amada
Luís de Camões
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
sábado, março 25, 2006
quatro e meia da manhã
Charles Bukowski
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro
e dirão:
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre
quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro
e dirão:
"ele tá bêbado de novo",
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.
sábado, março 11, 2006
Atitude
Cecília Meireles
Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.
O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.
Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.
Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.
O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.
Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.
quarta-feira, março 08, 2006
Ode ao Ciúme
David Mourão-Ferreira
Igual aos deuses me parece,
quem a teu lado vai sentar-se.
Quem saboreia a tua voz,
mais as delícias desse riso.
Que me derrete o coração,
e o faz bater sobre os meus lábios.
Assim que vejo esse teu rosto,
quebra-se logo a minha voz.
Sobe-me um fogo sob a pele,
seca-me a língua entre os dentes,
ficam-me surdos os ouvidos,
e os olhos cegos de repente.
Torna-se líquido o meu corpo,
Transpiro e tremo ao mesmo tempo.
Vejo-me verde, mais que a erva!
Só, por acaso, é que não morro!
Igual aos deuses me parece,
quem a teu lado vai sentar-se.
Quem saboreia a tua voz,
mais as delícias desse riso.
Que me derrete o coração,
e o faz bater sobre os meus lábios.
Assim que vejo esse teu rosto,
quebra-se logo a minha voz.
Sobe-me um fogo sob a pele,
seca-me a língua entre os dentes,
ficam-me surdos os ouvidos,
e os olhos cegos de repente.
Torna-se líquido o meu corpo,
Transpiro e tremo ao mesmo tempo.
Vejo-me verde, mais que a erva!
Só, por acaso, é que não morro!
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